Alívio

Devido a obrigações que não vem ao caso, estava eu hoje à espera, dentro do automóvel, debaixo do sol abrasador das duas da tarde. Do outro lado da rua, há um quase-lugar de estacionamento muito cobiçado por estar na sombra de uma enorme Tília e fora do alcance de qualquer parquímetro. É um quase-lugar porque é proibido estacionar naquele sítio, mas não há memória de alguém ter sido lá multado. Nesse cobiçado quase-lugar estava estacionado um daqueles automóveis que dispensam a carta de condução. A dada altura, encaminhou-se para essa viatura um senhor na casa dos sessenta, apoiado numa muleta, todo ele no limite do equilíbrio, acompanhado por uma senhora que vamos considerar que era a esposa. Vinham muito devagar, devagar demais para a minha pressa de herdar o quase-lugar. Chegados ao carro, a senhora ajudou-o a abrir a porta do condutor, arrumou-lhe a muleta e dirigiu-se para a outra porta. É agora - pensei eu - que vou para a sombra. Mas não iria ser tão depressa. O senhor, virado para o interior do carro e portanto de costas para mim graças-a-deus, desapertou o cinto das calças, baixou o zip e eu pensei: lá está outro com o vício de arranjar a fralda da camisa com as calças desapertadas. Mas não. Do outro lado do carro apareceu solicita a senhora (esposa ? ) com um baldinho tipo praia, que segurou abaixo da cintura do senhor e para onde ele aliviou a bexiga. As pessoas sentadas  no banco que a Câmara Municipal mandou construir em volta da Tília, reformados que foram receber a pensão na estação dos correios que fica em frente, gente que combinou ali algum encontro, ou simplesmente  pessoas sem mais que fazer do que gozar a fresca, ficaram de frente para a cena, mas desviaram convenientemente  os olhos numa atitude de compreensão para com as notórias dificuldades urológicas do sujeito. Feito o serviço a senhora despejou o efluente, cuidadosamente, junto de um pneu, mais ou menos como fazem os cães, mas da parte de dentro, entrou para o carro e foram á sua vida. Eu pude finalmente estacionar na sombra, com o cuidado de evitar a mancha amarela.
Entre uma algália e a dedicação extrema de alguém com um baldinho ambulante, venha o diabo e escolha. Ou talvez não.


1 comentário:

Lo Lo disse...

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