Alívio

Devido a obrigações que não vem ao caso, estava eu hoje à espera, dentro do automóvel, debaixo do sol abrasador das duas da tarde. Do outro lado da rua, há um quase-lugar de estacionamento muito cobiçado por estar na sombra de uma enorme Tília e fora do alcance de qualquer parquímetro. É um quase-lugar porque é proibido estacionar naquele sítio, mas não há memória de alguém ter sido lá multado. Nesse cobiçado quase-lugar estava estacionado um daqueles automóveis que dispensam a carta de condução. A dada altura, encaminhou-se para essa viatura um senhor na casa dos sessenta, apoiado numa muleta, todo ele no limite do equilíbrio, acompanhado por uma senhora que vamos considerar que era a esposa. Vinham muito devagar, devagar demais para a minha pressa de herdar o quase-lugar. Chegados ao carro, a senhora ajudou-o a abrir a porta do condutor, arrumou-lhe a muleta e dirigiu-se para a outra porta. É agora - pensei eu - que vou para a sombra. Mas não iria ser tão depressa. O senhor, virado para o interior do carro e portanto de costas para mim graças-a-deus, desapertou o cinto das calças, baixou o zip e eu pensei: lá está outro com o vício de arranjar a fralda da camisa com as calças desapertadas. Mas não. Do outro lado do carro apareceu solicita a senhora (esposa ? ) com um baldinho tipo praia, que segurou abaixo da cintura do senhor e para onde ele aliviou a bexiga. As pessoas sentadas  no banco que a Câmara Municipal mandou construir em volta da Tília, reformados que foram receber a pensão na estação dos correios que fica em frente, gente que combinou ali algum encontro, ou simplesmente  pessoas sem mais que fazer do que gozar a fresca, ficaram de frente para a cena, mas desviaram convenientemente  os olhos numa atitude de compreensão para com as notórias dificuldades urológicas do sujeito. Feito o serviço a senhora despejou o efluente, cuidadosamente, junto de um pneu, mais ou menos como fazem os cães, mas da parte de dentro, entrou para o carro e foram á sua vida. Eu pude finalmente estacionar na sombra, com o cuidado de evitar a mancha amarela.
Entre uma algália e a dedicação extrema de alguém com um baldinho ambulante, venha o diabo e escolha. Ou talvez não.


demografia

soube hoje que na minha terra vão construir um cemitério. também soube hoje que no próximo ano vai fechar a escola primária. há pouco tempo construíram um anexo para receber os pequeninos da pré. no ano passado puseram janelas novas. aquelas janelas gigantes das escolas primárias? puseram novas, em alumínio (PVC ?) cinzento escuro. de maneira que no mesmo ano fecha a escola e abre um cemitério. há uma avaliação duvidosa no meio deste investimento camarário. a escola fecha por falta de crianças. a prazo, o cemitério ficará ele também com falta de clientela.

ergonomia

ao Siza pagaram um balúrdio por ter feito isto com um copo :)

coisas que já estão fora-de-moda

Quando o pão caía ao chão, apanhava-se e beijava-se, assim como um pedido de desculpas ao "corpo de cristo". Mesmo se duro, mesmo se bolorento, mesmo se o seu destino fosse os porcos, ou as galinhas que corriam com aquela corrida desajeitada das galinhas (bicho estúpido que nem voa nem corre)atrás das migalhas, mesmo assim, o mesmo respeito pelo pão. Já aqui se falou disto, mas vem agora a propósito de ter encontrado num restaurante um prato de bacalhau com broa, proposta irrecusável para mim, que estou logo a ver juntar-se-lhe o azeite e o vinho. O crime perfeito. Só que, na fúria de inventar o que já foi inventado, e para impressionar parolos, escavaram no topo da broa uma caractera onde colocaram o bacalhau já assado, polvilharam com broa migada e levaram ao forno a gratinar. Uma broa inteira a fazer de alguidar, cujo destino inexorável será o lixo é um pecado sem perdão.

bom fim de semana

talvez volte ao blogue

O que me impressiona não são os dotes de cantor do koreano nem o facto de ter escapado de uma vida na rua, enquanto criança, durante 10 anos. O que impressiona é que isto já foi visto por mais 55 milhões de pessoas. E isto é que mudou o mundo a um ponto cujo alcance é difícil de compreender.

Era para ser para sempre



Há qualquer coisa, uma espécie de tensão semântica, neste título de jornal. Querem acabar definitivamente (i.e. para sempre) uma coisa que era vitalícia (i.e. para sempre). O estado disse que sim senhor, fulano tinha direito a esta pensão enquanto vivesse, mas afinal, o estado veio agora dizer que, em definitivo, lhe vai acabar com ela. O estado devia saber que essa coisa de acabar com coisas eternas está apenas ao alcance dos poetas

Isto está a mudar muito depressa

Quem mexe os cordelinhos da alta finança não está sujeito a nenhuma espécie de escrutínio. A coisa é perigosa. O comunismo já foi. Parece que chegou a vez do capitalismo. Outra coisa virá.
Por outro lado, muito boas notícias. A energia inesgotável está aí. E isso sim, vai virar este mundo do avesso. Para melhor.

Gatos

O beiral da janela aqui do gabinete é um passadiço para gatos. Serve-lhes de atalho entre os locais que eles frequentam. Passam, igonrando-me olimpicamente. Noto até desprezo na atitude deles. O caso não é para menos. Veêm-me atafulhado em papeis, coisa que sabem inutil. Sábios os gatos.

maradona

...nessa altura muitas noites de estudo na Universidade eram trocadas por visitas ao seu bar, onde estudei também disciplinas exigentes: a amizade, o amor, o tango, as empanadas argentinas, a camaradagem...

Um Estado que trata assim os cidadãos envergonha-nos

Anda (em boa verdade, andou) por aí tanta discussão acerca do pagamento de portagens nas SCUT, e ninguém protesta sobre a forma infame, como se está a tratar quem não se sujeita a usar a via verde ou o chip de matrícula: obrigar as pessoas a deslocar-se no prazo de cinco dias às estações dos CTT para pagar. É o que em bom português se chama chico-espertismo. "Se achas que o chip viola os teus direitos de privacidade, vais pagar os 65 centimos ali aos correios, esperas 2 horas, e vais ver o que é doce".
Para já não falar das trapalhadas dos carros alugados e dos estrangeiros.
Um Estado que trata assim os cidadãos envergonha-nos

O SIMPLEX podia ser organizar os serviços.

Ontem fui à secção de finanças pedir umas certidões de teor de uns prédios. Uma hora e meia de espera. O funcionário foi zeloso. Os prédios não eram meus, não me podia dar os documentos. Só ao próprio, ou a um advogado incumbido do serviço. Argumentei que tinha uma procuração do interessado, infelizmente, não a tinha comigo. Volte cá com a procuração. E assim fiz, de maneira que hoje lá voltei munido do necessário. Espera mais curta, apenas 20 ou 30 minutos. Quais são os prédios, são estes, tem que pagar 19,55 euros, aqui está. E as certidões? Volte cá daqui a oito dias !!!!
Para quem não saiba, passar aquelas certidões, significa ir a um computador, meter o número do artigo e imprimir. Que é o que vão fazer, quando eu lá voltar daqui a uma semana, e esperar sabe Deus quanto tempo.